Pesquisa da UFPR usa células de pele descartadas em cirurgias plásticas para criar modelo cutâneo funcional em laboratório
O que acontece com a pele descartada durante uma cirurgia plástica? No Laboratório de Bioensaios de Segurança e Eficácia de Produtos Cosméticos da Universidade Federal do Paraná, esse material ganhou um destino inesperado e promissor: virou matéria-prima para a criação de modelos de pele humana funcionais, produzidos por bioimpressão 3D. O projeto é conduzido em Curitiba, sob coordenação da professora Daniela Maluf, com apoio do Hospital Nossa Senhora das Graças, responsável por fornecer pele humana descartada em cirurgias. Ufpr
Como funciona o processo de bioimpressão
A transformação de resíduo cirúrgico em tecido de laboratório passa por diversas etapas técnicas cuidadosamente controladas. Primeiro, é feita uma fragmentação mecânica com bisturi; em seguida, são aplicados tratamentos enzimáticos e centrifugações para separar queratinócitos, fibroblastos e outras células, que são então transferidas para meios de cultivo específicos, onde podem se proliferar. Quando alcançam quantidade suficiente, essas células passam para a etapa seguinte do processo: elas se tornam aptas para aplicação em matriz gel e para a reconstrução em camadas pela bioimpressora 3D. UfprUfpr
O ingrediente central dessa tecnologia é o que os pesquisadores chamam de biotinta, um material com composição bastante específica. A impressão tridimensional exige o desenvolvimento de uma biotinta, mistura de células vivas e biomateriais compatíveis, como hidrogéis, para dar suporte à vida celular. Segundo a coordenadora do projeto, “cultivamos as células obtidas da pele descartada em cirurgias plásticas para que se multipliquem ao ponto de podermos congelá-las. Quando necessário, descongelamos essas células e utilizamos a bioimpressora 3D para reconstruí-las em camadas tal como as da pele humana.” UfprUfpr
Uma alternativa ética aos testes em animais
O contexto regulatório brasileiro deu urgência adicional a esse tipo de pesquisa nos últimos anos. Em julho de 2025, foi sancionada a Lei 15.183, que proíbe a realização de testes de cosméticos, perfumes e produtos de higiene pessoal em animais, refletindo uma mudança de consciência na sociedade, cada vez mais atenta à necessidade de eliminar práticas consideradas cruéis. Modelos de pele bioimpressa surgem justamente como uma das principais alternativas científicas viáveis para substituir esses testes sem comprometer a segurança dos produtos avaliados. Ufpr
O Brasil não está isolado nesse movimento. Pesquisas internacionais já demonstraram aplicações ainda mais ambiciosas da bioimpressão de pele, incluindo o uso direto durante procedimentos cirúrgicos. Uma equipe de investigadores liderada por Ibrahim T. Ozbolat, professor de engenharia biomédica e neurocirurgia na Penn State University, imprimiu várias camadas de pele diretamente durante uma cirurgia, algo inédito em relação a tentativas anteriores, que envolviam apenas a impressão de camadas finas de pele. Segundo o pesquisador, essa abordagem busca resolver um problema recorrente da reconstrução cirúrgica tradicional, já que as limitações atuais resultam, muitas vezes, em reconstrução esteticamente desagradável, com cicatrizes ou perda permanente de cabelo. PplwarePplware
O processo demonstrado internacionalmente segue uma lógica de camadas que se assemelha à estrutura natural da pele humana. A equipe imprimiu primeiro a camada mais inferior da pele, a hipoderme, constituída por tecido conjuntivo e gordura, diretamente no local da lesão, com o objetivo de auxiliar na cicatrização de feridas, na geração de folículos capilares e na regulação da temperatura. Em seguida, imprimiram a derme. Curiosamente, nem toda a pele precisa ser produzida artificialmente: a epiderme, camada visível e mais superior da pele, não necessitou de bioimpressão 3D, pois se formou por si só em duas semanas. PplwarePplware
Aplicações que vão além da reconstrução
O potencial da bioimpressão 3D na cirurgia plástica não se limita à reposição de pele perdida por trauma ou doença. Revisões científicas recentes mapeiam um leque mais amplo de aplicações da tecnologia. Tecidos bioimpressos, como pele, cartilagem e ossos, já estão sendo utilizados em contextos experimentais e clínicos, demonstrando eficácia na redução de complicações, na melhora da recuperação dos pacientes e na otimização dos recursos em saúde. Pesquisas mais avançadas já miram objetivos ainda mais ambiciosos: estudos em andamento sobre a bioimpressão de órgãos complexos, como coração e fígado, apontam para possíveis avanços na transplantação de órgãos. Revista ContemporâneaRevista Contemporânea
Desafios que ainda precisam ser superados
Apesar do entusiasmo científico, a tecnologia ainda enfrenta obstáculos importantes antes de se tornar rotina em hospitais brasileiros. Desafios tecnológicos e regulatórios significativos ainda persistem, incluindo a vascularização, a compatibilidade dos biomateriais e a padronização dos protocolos de impressão. Para que a tecnologia avance de forma segura, pesquisadores apontam a necessidade de esforço coordenado entre diferentes áreas: a colaboração interdisciplinar, as considerações éticas e o desenvolvimento de políticas regulatórias são fundamentais para garantir a implementação segura e equitativa dessa tecnologia na prática clínica. Revista ContemporâneaRevista Contemporânea
Além da criação de tecidos vivos, a impressão tridimensional já tem aplicação consolidada em outra frente da cirurgia plástica reconstrutiva: o planejamento pré-operatório. O planejamento cirúrgico assistido por 3D pode melhorar a precisão e os resultados estéticos, reduzindo o tempo de cirurgia e os riscos para os pacientes, além de facilitar a criação de dispositivos médicos sob medida. Essa combinação de simulação prévia e reconstrução tecidual personalizada indica um caminho de convergência tecnológica que deve se intensificar nos próximos anos. Ijhmreview
O que essa tecnologia representa para o futuro da especialidade
Para pacientes que dependem de cirurgias reconstrutivas complexas, seja por queimaduras, traumas ou remoção de tumores, a bioimpressão 3D representa a promessa de resultados mais naturais e com menor taxa de complicação. Ainda em fase de desenvolvimento, a tecnologia caminha para se consolidar como uma das fronteiras mais promissoras da cirurgia plástica reconstrutiva no Brasil e no mundo, unindo avanço científico, segurança regulatória e uma alternativa ética aos modelos experimentais tradicionais.
Ciência UFPR: https://ciencia.ufpr.br/portal/modelo-de-pele-humana-amplia-alternativas-aos-testes-de-cosmeticos-em-animais/
PPLWARE: https://pplware.sapo.pt/ciencia/com-sucesso-investigadores-utilizaram-bioimpressao-3d-de-pele-durante-uma-operacao/
Revista Contemporânea: https://ojs.revistacontemporanea.com/ojs/index.php/home/article/view/7503
International Journal of Health Management Review: https://www.ijhmreview.org/ijhmreview/article/view/357
