Um estudo multicêntrico randomizado avaliou se a expansão externa a vácuo poderia melhorar os resultados da reconstrução mamária com gordura autóloga. A técnica é utilizada antes da transferência de gordura com o objetivo de preparar o tecido receptor, ampliando o espaço disponível para o enxerto. Na análise intermediária do ensaio clínico EVE, porém, não foi identificada diferença estatisticamente significativa entre as participantes que utilizaram o método e aquelas submetidas apenas à transferência de gordura.
O trabalho foi conduzido por equipes da Universidade de Maastricht e do Maastricht University Medical Centre+, nos Países Baixos. Os resultados foram divulgados online em 3 de junho de 2026 e estão previstos para publicação na edição de agosto de 2026 do Journal of Plastic, Reconstructive & Aesthetic Surgery. As informações estão registradas no PubMed e associadas ao artigo com DOI 10.1016/j.bjps.2026.05.072.
Como foi realizada a avaliação
A análise intermediária incluiu 53 participantes. Desse total, 32 foram submetidas à expansão externa a vácuo e 21 integraram o grupo de controle, sem a aplicação da estratégia. Todas passaram por três sessões de transferência autóloga de gordura, procedimento que utiliza tecido da própria paciente para formar ou aumentar o volume mamário reconstruído.
Após seis meses, o volume foi avaliado por ressonância magnética. Os pesquisadores analisaram principalmente a ampliação obtida e a retenção do enxerto, indicador que ajuda a estimar quanto da gordura transferida permaneceu no local ao longo do período observado. Esses dados foram usados para comparar os resultados dos dois grupos.
Resultados não confirmaram benefício da expansão
Entre as participantes que utilizaram a expansão externa a vácuo, a ampliação média foi de 190,7%. No grupo de controle, o índice chegou a 176,4%. Apesar da diferença numérica, os resultados não foram estatisticamente significativos, o que impede afirmar, com base nessa análise, que a técnica tenha produzido uma melhora clínica comprovada.
A retenção do enxerto também foi semelhante. O grupo submetido à expansão apresentou retenção média de 39,3%, enquanto o controle registrou 34,9%. Segundo os autores, a diferença observada não foi suficiente para confirmar que a preparação do tecido por meio do vácuo aumente de maneira relevante a permanência da gordura transferida.
O resultado é importante porque a expansão externa parte de uma hipótese plausível: ao criar mais espaço e modificar as condições do tecido receptor, o método poderia favorecer a integração do enxerto. No entanto, neste recorte do ensaio EVE, essa expectativa não se traduziu em vantagem estatisticamente demonstrada nos principais desfechos avaliados.
Mais eventos adversos no grupo da expansão
A segurança também foi considerada na pesquisa. Foram contabilizados 22 eventos adversos entre as participantes que utilizaram a expansão externa a vácuo, incluindo cinco eventos adversos graves. No grupo de controle, foram registrados três eventos adversos e dois graves.
As complicações observadas foram predominantemente relacionadas à pele. A diferença reforça a necessidade de avaliar não apenas o potencial de aumento do volume reconstruído, mas também a tolerabilidade do método e os possíveis efeitos sobre os tecidos. Ainda assim, os dados fazem parte de uma análise intermediária e não representam, isoladamente, a conclusão definitiva do ensaio clínico.
O que os resultados significam para a reconstrução mamária
A reconstrução mamária com gordura autóloga pode envolver várias sessões e depende da capacidade de sobrevivência do tecido transferido. Por isso, estratégias que pretendem melhorar a retenção do enxerto são investigadas como forma de aumentar a previsibilidade do resultado. O estudo EVE, contudo, indica que a expansão externa a vácuo ainda não demonstrou benefício suficiente para ser considerada uma solução comprovada nesse contexto.
Os pesquisadores destacam que a avaliação ainda terá continuidade. Os resultados finais deverão incorporar informações de qualidade de vida relatadas pelas próprias pacientes, aspecto que pode complementar as medidas de volume, retenção e segurança. Dessa forma, a publicação não permite concluir que a técnica deva ser abandonada em todas as situações, mas mostra que sua utilidade permanece incerta.
Para pacientes interessadas em reconstrução mamária com gordura, os achados reforçam a importância de discutir indicações, limitações, número provável de etapas e riscos com o cirurgião plástico responsável. A escolha de uma técnica reconstrutiva depende das características individuais de cada caso e não deve ser baseada em resultados preliminares de um único estudo.
