Um estudo clínico randomizado realizado pelo Departamento de Cirurgia Plástica do Sahlgrenska University Hospital, na Suécia, comparou os resultados de longo prazo de diferentes técnicas de reconstrução mamária tardia. O trabalho avaliou pacientes que passaram pela reconstrução após a mastectomia e analisou desfechos que vão além do período pós-operatório imediato, como qualidade de vida relacionada à saúde, reoperações e custos diretos e indiretos do tratamento.
O artigo foi publicado on-line em 30 de junho de 2026 no Scandinavian Journal of Surgery. A pesquisa integra o estudo GoBreast, registrado no ClinicalTrials.gov sob o identificador NCT03963427. Ao todo, foram acompanhadas 100 pacientes, divididas em grupos de acordo com o histórico de radioterapia.
Resultados entre pacientes sem radioterapia
Entre as participantes que não haviam recebido radioterapia, a comparação envolveu a reconstrução em dois estágios com expansor e o retalho toracodorsal associado a implante. O expansor é utilizado para preparar gradualmente os tecidos antes da colocação do implante definitivo, enquanto o retalho toracodorsal utiliza tecido da região das costas em conjunto com uma prótese.
Nesse grupo, o estudo identificou melhora estatisticamente significativa na qualidade de vida entre as pacientes submetidas à reconstrução em dois estágios com expansor. A técnica também apresentou menor frequência de reoperações em comparação com o retalho toracodorsal associado a implante. O acompanhamento médio das participantes desse grupo foi de 12,9 anos, permitindo observar a evolução dos resultados ao longo de um período prolongado.
Segundo os dados apresentados pelos pesquisadores, a taxa de reoperações registrada no grupo do expansor foi aproximadamente metade da observada entre as pacientes que receberam o retalho toracodorsal com implante. A diferença destaca a importância de avaliar a necessidade de novas intervenções ao longo dos anos, e não apenas complicações ou resultados estéticos nos primeiros meses após a cirurgia.
Comparação em pacientes submetidas à radioterapia
Para as pacientes que haviam recebido radioterapia, a análise comparou o retalho do músculo latíssimo do dorso com implante e o retalho DIEP. A técnica DIEP utiliza tecido da região abdominal para formar a mama reconstruída, preservando o músculo reto abdominal. Já o retalho do latíssimo do dorso transfere tecido das costas e, neste estudo, foi associado ao uso de implante.
As pacientes submetidas ao DIEP não registraram reoperações durante o período analisado. No grupo que recebeu o retalho do latíssimo do dorso com implante, houve maior taxa de novas cirurgias. No entanto, os pesquisadores ressaltam que esse subgrupo era pequeno, com apenas 25 participantes, o que limita a força das conclusões.
Também entre as pacientes que passaram por radioterapia, as diferenças em qualidade de vida e custos não alcançaram significância estatística. Por isso, os resultados podem indicar uma tendência favorável ao DIEP quanto à necessidade de reoperação, mas não permitem afirmar que a técnica seja superior em todos os aspectos ou para todas as pacientes irradiadas.
Escolha depende do perfil da paciente
Os achados reforçam que não existe uma técnica universalmente melhor para a reconstrução mamária tardia. A decisão depende de fatores como radioterapia prévia, condições clínicas, disponibilidade de tecido, características corporais, preferência da paciente e experiência da equipe responsável pelo procedimento.
A radioterapia, em particular, é um elemento relevante no planejamento. Os efeitos do tratamento sobre a pele e os tecidos podem influenciar a escolha da técnica reconstrutiva e a probabilidade de complicações ou novas cirurgias. Por isso, a avaliação costuma envolver cirurgiões plásticos, mastologistas, oncologistas e outros profissionais, em conjunto com a paciente.
O longo período de acompanhamento do estudo também amplia a compreensão sobre o impacto da reconstrução. Uma técnica pode apresentar bom resultado inicial, mas exigir revisões ao longo do tempo. Da mesma forma, a percepção da paciente sobre a própria qualidade de vida pode mudar durante os anos, tornando esse desfecho relevante para a decisão terapêutica.
Limitações e contexto dos custos
Os autores alertam que a pesquisa foi conduzida em um único centro na Suécia. Dessa forma, os resultados devem ser interpretados considerando o perfil das participantes, a experiência da equipe e as características do sistema de saúde sueco. O número reduzido de pacientes no grupo submetido à radioterapia é outra limitação importante para a interpretação dos resultados.
Os custos calculados no trabalho também refletem a realidade da Suécia e não devem ser convertidos diretamente para o cenário brasileiro. Diferenças na organização dos serviços, nos valores hospitalares, no acesso a materiais e na cobertura de tratamentos podem alterar o impacto econômico de cada técnica.
O principal significado do estudo está na comparação estruturada de resultados clínicos e de qualidade de vida durante um período extenso. Para pacientes e equipes, os dados reforçam a necessidade de discutir a reconstrução mamária com uma perspectiva de vários anos, considerando possíveis reoperações, recuperação, preferências individuais e acompanhamento multidisciplinar. O registro bibliográfico do trabalho está disponível no PubMed.
