A toxina botulínica tipo A pode contribuir para melhorar a aparência de cicatrizes após procedimentos cirúrgicos, mas as evidências disponíveis ainda não são suficientes para transformá-la em tratamento padrão. Essa é a conclusão de uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 24 de junho de 2026 no periódico Plastic and Reconstructive Surgery.
O trabalho reuniu dados de 19 estudos, envolvendo 686 pacientes, e avaliou o uso da substância tanto na prevenção de cicatrizes patológicas quanto na melhora da qualidade das marcas já formadas. Os resultados apontaram associação com melhores avaliações da cicatriz, redução de sua largura e maior satisfação dos pacientes. Os efeitos adversos foram descritos como mínimos e transitórios.
O estudo original está disponível no PubMed, sob o título Efficacy and Safety of Botulinum Toxin Type A for Pathological Scar Prevention: A Systematic Review and Meta-Analysis. A publicação eletrônica ocorreu em junho, enquanto o registro da edição impressa corresponde ao volume 158, número 1, do periódico, com páginas 53e a 64e.
Como a toxina botulínica pode interferir na cicatrização
A hipótese discutida pelos pesquisadores está relacionada à redução da tensão mecânica sobre a ferida. Ao promover o relaxamento temporário da musculatura próxima ao local operado, a toxina pode diminuir a força exercida sobre a pele durante os movimentos e, consequentemente, favorecer uma cicatriz menos larga ou elevada.
Além do efeito muscular, os autores consideram a possibilidade de a substância influenciar processos inflamatórios envolvidos na formação de cicatrizes hipertróficas e queloides. Essas marcas podem apresentar espessamento, crescimento além dos limites da ferida e alterações na textura, embora tenham características clínicas distintas e dependam de avaliação individual.
Na análise dos estudos, a aplicação da toxina botulínica tipo A esteve associada a resultados mais favoráveis em escalas usadas para avaliar cicatrizes. Também foram observadas medidas menores de largura e níveis mais altos de satisfação entre os pacientes. Ainda assim, a revisão não permite afirmar que o método funcione de maneira uniforme para todas as pessoas ou regiões do corpo.
Resultados promissores não definem um tratamento padrão
O comunicado da American Society of Plastic Surgeons destaca que os achados são favoráveis, mas devem ser interpretados com cautela. Os estudos analisados utilizaram abordagens diferentes, o que dificulta estabelecer uma orientação única sobre dose, momento da aplicação, técnica e região anatômica mais indicada.
Os próprios pesquisadores apontam a necessidade de ensaios maiores e com protocolos mais homogêneos. Essas novas pesquisas podem ajudar a esclarecer quais pacientes têm maior probabilidade de benefício, em que fase da cicatrização a aplicação seria mais adequada e por quanto tempo os possíveis efeitos seriam mantidos.
Também é importante diferenciar essa investigação do uso mais conhecido da toxina botulínica para suavizar rugas de expressão. A prevenção ou o tratamento de cicatrizes representa uma aplicação distinta e, conforme o contexto clínico, fora das indicações estéticas tradicionais da substância. Portanto, os resultados da revisão não devem ser interpretados como uma recomendação automática para aplicação após qualquer cirurgia.
Avaliação individual continua sendo essencial
O risco de desenvolver uma cicatriz elevada ou alargada depende de fatores como características individuais, localização da ferida, tensão sobre a pele, tipo de procedimento e histórico anterior de cicatrização. Por isso, a decisão sobre utilizar ou não a toxina botulínica precisa considerar o quadro de cada paciente, além de alternativas de acompanhamento e tratamento.
Pessoas submetidas a cirurgias estéticas ou reconstrutivas, assim como aquelas com histórico de cicatrizes hipertróficas ou queloides, devem conversar com o cirurgião plástico ou dermatologista responsável. O profissional pode examinar a cicatriz, avaliar riscos e benefícios e explicar se há evidências suficientes para considerar a abordagem naquele caso.
Assim, a revisão publicada em Plastic and Reconstructive Surgery amplia o debate sobre estratégias para melhorar a cicatrização, mas não comprova uma solução universal. A toxina botulínica tipo A aparece como uma possibilidade promissora, especialmente pela combinação entre relaxamento muscular e potencial influência sobre a inflamação, enquanto a definição de protocolos seguros e eficazes ainda depende de novas evidências.
