Um estudo clínico randomizado realizado por pesquisadores da Mayo Clinic avaliou o efeito da bupivacaína lipossomal no controle da dor após mamoplastia redutora. O anestésico local tem ação prolongada e foi comparado à bupivacaína convencional, utilizada como parte da estratégia de analgesia durante a cirurgia.
Publicado eletronicamente em 18 de junho de 2026 e previsto na edição de setembro de 2026 da revista JPRAS Open, o trabalho analisou 32 mulheres submetidas à redução mamária. Os resultados apontaram uma diminuição estatisticamente significativa da dor no lado tratado com a formulação de longa duração durante os dois primeiros dias de recuperação.
Como o estudo comparou os anestésicos
A pesquisa utilizou um modelo conhecido como “split-breast”, no qual cada paciente serviu como seu próprio controle. Em uma das mamas, os pesquisadores aplicaram a combinação de bupivacaína lipossomal e bupivacaína convencional. Na outra, foi administrada apenas a bupivacaína convencional.
Esse desenho permitiu comparar a percepção dolorosa entre os dois lados do corpo na mesma pessoa, reduzindo a influência de diferenças individuais, como tolerância à dor e resposta aos medicamentos. As participantes foram mantidas sem conhecimento sobre qual mama havia recebido cada formulação, enquanto o estudo não teve cegamento completo da equipe responsável pela aplicação.
Diferença maior ocorreu no primeiro dia
De acordo com os dados publicados no artigo disponível na National Library of Medicine, a maior diferença foi registrada na manhã do primeiro dia após a cirurgia. Nesse momento, a redução média da dor no lado que recebeu bupivacaína lipossomal foi de 0,8 ponto em uma escala de zero a dez.
Em outras avaliações realizadas ao longo do primeiro e do segundo dia, a diferença mediana chegou a um ponto. No terceiro dia, entretanto, os níveis de dor se aproximaram entre os dois lados. O resultado sugere que o possível efeito adicional do anestésico de ação prolongada ficou concentrado na fase inicial da recuperação.
Apesar da significância estatística, os próprios autores classificaram o benefício como modesto. A diferença observada não alcançou o limite de dois pontos previamente definido no estudo como clinicamente relevante para dor pós-operatória. Na prática, isso significa que uma diferença identificada pela análise estatística pode não ser percebida como uma melhora importante por todas as pacientes.
Não houve redução significativa no uso de opioides
O trabalho também avaliou o consumo de medicamentos opioides e indicadores relacionados à recuperação. Não foi observada redução significativa no uso de narcóticos nem melhora comprovada da recuperação funcional com a bupivacaína lipossomal.
Doze participantes, equivalentes a 37,5% da amostra, não utilizaram narcóticos depois do procedimento. Entre as mulheres que recorreram a esse tipo de medicamento, o consumo mediano foi de um comprimido. Esses dados, porém, devem ser interpretados com cautela, já que o número total de participantes foi pequeno.
O estudo não registrou complicações ou eventos adversos relacionados aos anestésicos avaliados. Ainda assim, a ausência de problemas na amostra não significa que o medicamento esteja livre de riscos em todos os perfis de pacientes. A indicação e a forma de controle da dor dependem da avaliação médica, das condições clínicas e do protocolo adotado pela equipe cirúrgica.
Resultados ainda não definem superioridade clínica
Para os pesquisadores, são necessários estudos maiores, com poder estatístico suficiente, para esclarecer se o custo adicional da bupivacaína lipossomal se traduz em uma vantagem clínica relevante. O tamanho reduzido da amostra limita a possibilidade de generalizar os resultados para todas as mulheres submetidas à mamoplastia redutora.
A pesquisa contribui para a discussão sobre analgesia multimodal, estratégia que combina diferentes métodos e medicamentos para controlar a dor após uma operação. No entanto, os dados não sustentam a apresentação da bupivacaína lipossomal como solução definitiva ou superior em qualquer situação.
O registro bibliográfico do estudo pode ser consultado no PubMed. Para pacientes que consideram a mamoplastia redutora, a principal conclusão é que o anestésico de longa duração demonstrou benefício temporário e limitado nos primeiros dias, mas ainda não há evidência suficiente para afirmar que ele reduza de maneira importante a necessidade de opioides ou acelere a recuperação.
