A inteligência artificial chegou à medicina estética com promessas concretas: simular resultados antes da cirurgia, analisar estruturas anatômicas com precisão e tornar o planejamento cirúrgico mais seguro. Ao mesmo tempo, um fenômeno preocupante começou a chamar atenção dos cirurgiões plásticos no mundo: pacientes chegando às consultas com imagens geradas por IA como modelo do resultado que desejam alcançar. O contraste entre esses dois usos da tecnologia revela muito sobre os limites e as possibilidades da IA na estética contemporânea.
O que a IA já faz nos consultórios
Na cirurgia plástica, a inteligência artificial já é aplicada em diversas etapas do processo. No pré-operatório, auxilia na análise de exames e avaliação de risco cirúrgico, permitindo um planejamento personalizado, e pode projetar possíveis resultados de cirurgias como mamoplastia ou analisar padrões de envelhecimento para indicar tratamentos mais adequados. No intraoperatório, o uso de realidade aumentada e visão computacional guia o cirurgião com maior precisão durante o procedimento. No pós-operatório, a tecnologia contribui com o monitoramento por sensores inteligentes e a análise da cicatrização. SBCP
Para o cirurgião plástico Dr. Vinicius Julio Camargo, o principal ganho da IA está na previsibilidade: ela não substitui o cirurgião, mas melhora a análise e o planejamento, permitindo simulações mais realistas que facilitam o alinhamento de expectativas entre médico e paciente e reduzem frustrações. SEGS
Essa capacidade de simulação tridimensional já está disponível em clínicas no Brasil, especialmente para procedimentos como mamoplastia, rinoplastia e lipoaspiração. O paciente consegue visualizar antes da cirurgia como diferentes abordagens afetariam sua aparência, tornando a conversa com o médico mais objetiva e a decisão mais informada.
O problema das imagens geradas por IA
Mas há um lado dessa equação que preocupa a comunidade médica. Pacientes têm chegado a clínicas de cirurgia plástica com imagens produzidas por inteligência artificial como modelo ideal para procedimentos estéticos. Com o avanço acelerado das plataformas generativas entre 2024 e 2026, especialistas acreditam que esse comportamento tenha se intensificado. FENATI
O caso relatado pelo Business Insider ilustra bem o problema: uma paciente americana de 60 anos, insatisfeita com o resultado inicial de um lifting facial, recorreu ao ChatGPT para imaginar uma possível correção e recebeu uma versão digitalizada de si mesma com pele extremamente lisa, mandíbula de modelo e lábios incompatíveis com suas feições reais. Essa imagem, gerada por um algoritmo sem qualquer base anatômica ou clínica, passou a ser seu parâmetro de comparação para o trabalho do cirurgião. FENATI
O problema não é a tecnologia em si, mas o uso dela sem contexto médico. Ferramentas de IA generativa não levam em conta as limitações anatômicas de cada pessoa, o processo de cicatrização, a elasticidade da pele ou qualquer outro fator clínico. O que produzem são idealizações digitais, não resultados cirúrgicos possíveis.
Como usar a tecnologia a favor da decisão
A IA, quando utilizada dentro do consultório por profissionais habilitados, é uma aliada. A realidade aumentada na cirurgia plástica permite avanços na projeção de volume, formato e simetria, e auxilia na redução da ansiedade dos pacientes e no alinhamento das expectativas cirúrgicas ao oferecer uma visualização pré-operatória mais precisa. Esse é o uso correto da tecnologia: como ferramenta de comunicação entre médico e paciente, subordinada ao julgamento clínico. RBCP
Para quem deseja explorar as possibilidades da tecnologia no planejamento de um procedimento estético, o caminho mais seguro é levar as dúvidas a um cirurgião plástico certificado pela SBCP e pedir, quando disponível, a simulação supervisionada pelo próprio profissional, em vez de basear expectativas em imagens geradas por aplicativos.
Fontes:
- SBCP / Dra. Isabel Cristina: https://www.cirurgiaplastica.org.br/en/inteligencia-artificial-na-cirurgia-plastica-transformando-a-pratica-medica-com-etica-e-inovacao/
- SEGS / Dr. Vinicius Julio Camargo: https://www.segs.com.br/saude/441415-inteligencia-artificial-muda-a-forma-como-brasileiros-planejam-cirurgia-plastica
- Fenati / Business Insider: https://fenati.org.br/cirurgioes-plasticos-relatam-pedidos-baseados-ia/
- RBCP (Revista Brasileira de Cirurgia Plástica): http://www.rbcp.org.br/details/3541/pt-BR/limitacoes-e-desafios-na-incorporacao-da-inteligencia-artificial-em-cirurgia-plastica–uma-revisao-sistematica
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
