O dálmata carrega há décadas a fama de cão teimoso, agitado e difícil de educar. Wilson Bachega Junior, entusiasta da raça, considera que parte dessa reputação nasce de um mal-entendido: muitos dos cães rotulados como desobedientes simplesmente não escutam direito.
A contradição está à vista de quem convive com eles. O mesmo animal que não atende quando chamado no quintal responde rápido a um gesto ou a uma batida de pé no chão. Teimosia não costuma escolher o canal pelo qual obedece. Entender a surdez congênita da raça muda a forma de ensinar, de brincar e até de escolher um filhote.
De onde vem a fama de cão desobediente?
Pense num filhote que corre para o portão sempre que alguém aparece, mas ignora o próprio nome dito em voz alta. Para o tutor, a conclusão parece óbvia. Para o veterinário, é um sinal de alerta.
A surdez congênita sensorioneural é comum no dálmata e está ligada aos genes da pelagem branca com manchas. Sem pigmento em certas células do ouvido interno, as estruturas que captam o som degeneram nas primeiras semanas de vida. Levantamentos conduzidos ao longo de décadas pela Universidade Estadual da Louisiana, nos Estados Unidos, apontam que cerca de três em cada dez dálmatas têm algum grau de perda auditiva.
A mesma pesquisa ajuda a separar mito de risco real. Dálmatas de olhos azuis aparecem com mais frequência entre os surdos, enquanto os que nascem com uma mancha escura grande, geralmente na cabeça, mostram risco menor. Nenhum desses sinais serve como diagnóstico, mas ambos indicam onde redobrar a atenção.
O cão que ouve de um lado só
A surdez completa costuma ser notada cedo. O problema maior está na unilateral, bem mais frequente. Um cão que ouve só com um ouvido reage a sons, acorda com barulho e parece normal no dia a dia.
O que ele perde é a noção de direção. Chamado no parque, levanta a cabeça, mas não sabe de onde veio a voz e segue farejando. Wilson Bachega Junior, nesse ínterim, assinala que esse comportamento é justamente o que mais alimenta o rótulo de cão distraído, quando na verdade o animal procura a fonte do som sem conseguir localizá-la.

Há ainda um detalhe que confunde: o dálmata surdo de um lado tende a reagir com atraso, e o atraso parece descaso. Quem não sabe disso insiste no comando, eleva o tom e acaba ensinando ao cão apenas que a voz humana vem acompanhada de tensão.
O exame que tira a dúvida
O diagnóstico não depende de palmas atrás do cão nem de chocalho. O teste usado é o BAER, sigla em inglês para resposta auditiva evocada do tronco encefálico. Eletrodos finos registram a atividade elétrica do cérebro enquanto cada ouvido recebe estímulos sonoros separadamente, sem dor e em poucos minutos.
O exame pode ser feito a partir de cerca de seis semanas de vida. Criadores responsáveis testam as ninhadas antes da venda, e vale pedir o laudo ao comprar um filhote. Na avaliação de Wilson Bachega Junior, esse papel diz mais sobre a seriedade de um canil do que qualquer pedigree emoldurado.
Treinar pelo olhar, não pela voz
Um diagnóstico de surdez, como sintetiza Wilson Bachega Junior, não condena o cão a uma vida limitada. Dálmatas surdos aprendem sinais visuais com facilidade: mão aberta para ficar, polegar para cima como recompensa, palma voltada para baixo para deitar, lanterna piscando à noite para chamar de volta ao quintal. O contato visual vira o principal canal de comunicação.
Algumas precauções mudam. O cão não deve andar solto perto de ruas, porque não ouve carros, e precisa ser acordado com toque suave ou vibração no chão, nunca de surpresa. Com essas adaptações, a fama de teimoso costuma desaparecer em semanas, o que diz muito sobre quanto do problema estava, desde o início, do lado humano da guia.
